Dia 29 de janeiro: um beijo pra quem é Travesti ou Transexual!

Desde muito pequenos aprendemos a principal diferença entre meninos e meninas: meninos nasceram com um pênis e meninas nasceram com uma vagina. Simples assim. É uma coisa da natureza. Você não escolhe. Simplesmente aceita o pênis, a vagina e toda a simbologia cultural por trás deles. Sim, porque até que você tenha condições de declarar ou expressar o contrário, a sociedade vai classificar você como macho ou fêmea, homem ou mulher e preferencialmente heterossexual. São as únicas possibilidades colocadas pela sociedade onde TUDO é possível (os avanços tecnológicos nos permitirão viver por mais tempo, levarão em breve o homem a passeios turísticos pelo espaço sideral e doenças como o câncer terão cura muito em no máximo 10 anos), MENOS utilizar a criatividade, a sensibilidade e a consciência humana a serviço da própria felicidade, prazer e satisfação pessoal.

Quem sofre preconceito por ir de encontro a essas noções pré estabelecidas entende do que estamos falando. Pois desde muito cedo, as regras que definem os gêneros são muito claras: meninos brincam de carrinho (pois é preciso aprender a estar no comando), usam roupas azuis (qualquer outra cor colocaria em dúvida a sexualidade do garoto), jogam futebol (é preciso ser competitivo) e não precisam se envergonhar de agirem como brutamontes sempre que lhes for permitido (se for muito educado então é gay). Já as meninas precisam se comportar como ladies (afinal, serão as namoradas perfeitas), brincar de bonecas (afinal, nasceram para ser mães exemplares), usar roupas cor de rosa (precisam ser femininas para atrair seus homens) e fazer balé (tem que ser magra, afinal). Mas se você tem um pênis e gosta de ser a irmã da Barbie na hora da brincadeira, então parabéns, você é a “mulherzinha” da turma e será eterno motivo de chacota! O problema é que ninguém deveria ser oprimido ou sentir vergonha por ser mulher, muito pelo contrário.

Agora imagine que em vez de impor todo esse aprendizado nada emancipador (pois o patriarcado, embora coloque as mulheres em posição de subserviência em relação aos homens, que é obviamente muito pior, no final das contas, não beneficia nenhum dos gêneros), nossa sociedade permitisse que nós escolhêssemos com qual dos gêneros nos identificamos (ou talvez nenhum deles) antes de nos presentear com uma dúzia de carrinhos ou bonecas? Será que haveria tanta incompreensão por parte dos pais na hora de encarar a travestilidade dos filhos? E se eles tivessem sido educados a não arranjar tantas namoradinhas ou namoradinhos quando ainda estávamos no ventre das nossas mães? Será que haveriam tantas lâmpadas quebradas em nossas cabeças?

Não, a culpa não é dos nossos pais. Eles também foram criados nessa sociedade machista, heteronormativa e binária. São essas velhas concepções (que não se engane, estão a serviço do capitalismo e do patriarcado) as verdadeiras responsáveis pela situação de invisibilidade, preconceito e violência que vivem as travestis e transexuais de todo o mundo. Elas subvertem diariamente as noções de masculino e feminino ao expor que a identidade de gênero nada tem a ver com o sexo biológico. Também nos fazem lembrar, assim como os gays, lésbicas e mulheres feministas, que o sexo tem outras funções que não só a reprodução. Que nenhum homem e nenhuma mulher nasceu unicamente para ser pai ou mãe. E principalmente, recolocam na ordem do dia a questão do controle que o Estado exerce sobre os nossos corpos, interferindo e selecionando quem pode se submeter a um processo de transgenitalização ou impedindo que as pessoas possam ser chamadas pelo nome que elas escolheram.

Mas sobretudo, hoje, 29 de janeiro, é preciso falar sobre as consequências de tamanho preconceito no cotidiano das travestis e transexuais. É preciso falar sobre a exclusão que sofrem de suas famílias ainda na adolescência e sobre o despreparo do Estado para acolhê-las e garantir que terão acesso a educação, saúde, trabalho e moradia. É preciso falar sobre a violência que sofrem nas ruas, nos perigos que enfrentam quando recorrem à prostituição como forma de sobrevivência e na responsabilidade daqueles que as exploram sexualmente. É necessário falar sobre os métodos pouco confiáveis ao qual elas recorrem para ter o corpo desejado (aplicação de silicone industrial e tratamentos hormonais sem acompanhamento médico), que em uma sociedade verdadeiramente justa, deveria receber atenção por parte dos órgãos de saúde pública. É preciso falar, enfim, sobre a situação de invisibilidade das travestis e transexuais. Pois elas não são apenas prostitutas, não são personagens cômicos de programas de humor e tampouco são objetos exóticos de fetiche sexual, embora quase sempre sejam assim retratadas pela mídia. São cidadãs e cidadãos que merecem respeito! Hoje, 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Travesti e Transexual, é dia de falar sobre tudo isso.

Para nós, do Coletivo LGBT 28 de Junho, um mundo sem transfobia só é possível a partir da construção de uma sociedade onde as nossas potencialidades e desejos não sejam limitados a serviço da exploração de capital. Onde a mulher não seja um mero objeto sexual do homem. Onde a heterossexualidade ou qualquer orientação sexual não seja uma condição compulsória. E onde masculino e feminino não sejam os únicos gêneros possíveis. Um outro mundo é possível, mas é preciso transformá-lo para que todos os 365 dias do ano sejam dias de plena visibilidade trans, travesti, lésbica, gay, negra e pobre. É preciso lutar!

Coletivo LGBT 28 de Junho

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